• ads

Jump Gold Selection 1: Saint Seiya Anime Special

By admin
In Artbooks
fev 9th, 2016
10 Comments
6067 Views
Publicação oficial de Saint Seiya (Os Cavaleiros do Zodíaco) 
Jump Gold Selection 1: Saint Seiya Anime Special — compilação especial da Shūkan Shōnen Jump, Shūeisha.

 

   Um marco na política editorial da Shūeisha, o selo Jump Gold Selection se notabilizou pelo lançamento de livros ilustrados de animes originados na Shōnen Jump, a exemplo de Saint Seiya, City Hunter e Dragon Ball Z.

   Originalmente, a única obra da Jump contemplada com esses mooks (contração de magazine e books) foi Dr. Slump & Arale-chan, que teve seus filmes retratados em edições especiais; no entanto, o sucesso paroxístico de Saint Seiya em 1987 e 1988 ensejou o lançamento do primeiro mook centrado numa série televisiva, o Jump Gold Selection – Saint Seiya Anime Special.
    Idealizada pelo famoso editor Kazuhiko Torishima, a publicação da trilogia foi iniciada no dia 13 de julho de 1988 e logo se consolidou como a verdadeira enciclopédia do anime, desaparecendo das prateleiras de todo o país.
    Além das ilustrações exclusivas do mestre Shingo Araki e do talentoso diretor de animação Masahiro Naoi, o livro, que teve a edição capitaneada por Tetsuo Daitoku, está repleto de materiais inestimáveis, como os croquis de criação dos personagens, absolutamente inéditos até então, imperdíveis depoimentos do estafe e do elenco, um dicionário com a terminologia da obra e os nomes envolvidos na produção de cada capítulo do seriado.
   Item imprescindível para os fãs de Seiya, o livro ainda brinda os leitores com sinopses ilustradas dos primeiros 25 episódios, uma introdução ao filme A Lenda dos Jovens Carmesins [A Batalha de Abel], a apresentação em foto-legenda do primeiro filme e um comovente relato do mestre Masami Kurumada.
    Para o deleite dos aficionados sectários, a publicação também traz a história Corrente Nebulosa: Laços entre Irmãos, um conto original do senhor Takao Koyama, o roteirista principal do anime, a trajetória das miniaturas da Bandai, uma introdução à discografia da animação e as fichas conceituais dos cavaleiros.

 

Nota à Edição Brasileira da Jump Gold Selection 1

 

   Transcorridos quase 30 anos desde a comercialização da edição nipônica, esta é a primeira versão internacional do livro, uma publicação rara, que deve ser celebrada pelos fãs ocidentais da obra, sobretudo os brasileiros, espanhóis, mexicanos e franceses.

   Espero que apreciem cada página desta fantástica revista, uma autêntica mina de ouro para os fãs que tencionam compreender o polissêmico universo de Seiya.

                                                                                  Fábio Vaz (Sagatwin).

Para visualizar as imagens em sua máxima resolução, clique nas páginas.
                                                                   
 


Transcrição da Edição

 

Explosão de Gargalhadas! Mesa-redonda dos Dubladores

 

   A mesa-redonda dos dubladores dos cavaleiros de bronze está para começar. No dia 31 de maio de 88, por meio de uma mavórtica guerra de palavras, os cinco cavaleiros reunidos envolveram toda a mesa no fragor das risadas. Eles agora contarão um grande número de histórias secretas do anime!

 

Nós somos os cavaleiros [da voz]!

 

O sucesso de Seiya se deve a estes cinco! No dia 11 de outubro de 1986, o começo da difusão do anime, também se iniciou a batalha dos dubladores. Com foco nas agruras da composição dos papéis, um episódio de gargalhadas já está garantido!

 

Ryō Horikawa (Shun de Andrômeda)
Hideyuki Hori (Ikki de Fênix)
Tōru Furuya (Seiya de Pégaso)
Kōichi Hashimoto (Hyoga de Cisne)
Hirotaka Suzuoki (Shiryu de Dragão)

 

Mediador: Apesar de estarem completamente assoberbados de trabalho, vocês me fizeram o favor de se reunir aqui. Eu realmente lhes sou muito grato. Bem, como são os episódios iniciais da animação, gostaria de começar pela fase da guerra galáctica.

Hori: No início, ninguém sabia quem era quem pela cara. Especialmente o Seiya e o Jabu… A cara deles não era parecida?

Furuya: Ah, pareciam, pareciam! (Risos.)

Hori: Além disso, entre os cavaleiros de bronze que vieram surgindo, só o Hidra era diferente, não é verdade?

Furuya: Com um moicano…

Hashimoto: O Hyoga lutou com o Hidra. Como foi o inimigo que apareceu logo no início, eu me lembro bem dele.

Hori: E foi o Ikki quem acabou com a Guerra Galáctica, certo?

Furuya: Isso. Foi você! (Risos.)

Horikawa: o Ikki não apareceu gargalhando aos berros no final de um episódio?

Hori: Ah, isso mesmo. Estreou no episódio 6, não? Esperei impacientemente… (Risos.) Já que, apesar de ser do elenco fixo, não havia sido chamado 2 meses depois da estreia. (Risos.)

Mediador: Entretanto, depois de fazer sua aparição, pelo menos até o episódio 25, o Ikki foi o que mais esteve em evidência, não?

Hori: Bem, para ser honesto, é verdade. Encontrou a Esmeralda enquanto era treinado naquela ilha do inferno… Essa foi a única tábua da salvação. Não, era um lugar terrível. (Risos.)

Suzuoki: No que tange a Seiya, quando apareceram pela primeira vez, todos eram bonitões. Nos últimos tempos, finalmente tive o sentimento de que o Shiryu era meu; contudo, no começo, eu realmente quebrei a cabeça pensando em como matizaria o personagem, sabe?

Hashimoto: Eu também. No início, como todo mundo era bonito, acontecia de o papel ser um pouco difícil de assimilar, ainda que eu olhasse a imagem. Contudo, o Hyoga é o único loiro, não é mesmo? Com isso, eu compreendi.

Horikawa: Bem, na hora que recebi a audição (de seleção dos atores), como não sabia nada do personagem e como não tinha qualquer ideia preconcebida, construí o papel da forma mais terna que pude. Então, o personagem que ganhei foi o Shun de Andrômeda… (Risos.) Mais tarde, quando eu experimentava o papel do Shun, o pessoal soava incrivelmente másculo… galante, entende? Por isso, ao contrário deles, o Shun não era para ser feito de forma enérgica. Pois havia situações em que eu pensava que masculinidade não se resume a ferocidade.

Hori: Falando da audição, eu li as falas e, como tinham o estilo dos meus amados filmes de época, foi realmente fácil de fazer, sabe? Brega… (Risos.)

Furuya: sempre foi cafona, não? O ikki… (Risos.)

Hori: Contudo, os cinco estão assim agora, mas, se a distribuição de papéis tivesse sido diferente naquela época e se os cinco tivessem pegado outros papéis, provavelmente seria um Seiya diferente.

Furuya: Ora, neste caso, não estaria fazendo sucesso. (Risos.)

Hori: É verdade. Embora seja o protagonista, aquela falta de presença do Seiya… Ninguém além do Furuya poderia fazê-lo. (Explosão de gargalhadas.)

Furuya: Mas eu realmente queria fazer o Shiryu… Cabelo longo, pomposo… é algo que até hoje não fiz. O tipo bonzão…

Suzuoki: Então, vamos trocar a partir da semana que vem? (Risos.)

 

Os motivos pelos quais Seiya de Pégaso se parece com Hiyuma Hoshi

 

O protagonista é o Seiya! O confronto entre Tōru Furuya e os outros cavaleiros de bronze teve início. Mesmo que seja esquentado, mesmo que seja infantil, ele é legal, não é? Irromperá desse arroubo o Meteoro de Pégaso?!

 

Furuya: Mas todos os protagonistas que faço acabam sendo eclipsados por outros papéis… E não é diferente com o Seiya. Ainda que pôsteres e artigos do gênero tenham saído, os dele são os últimos… (Risos.) No início, eu tinha aquele entusiasmo de compor uma nova imagem de herói juvenil, mas, enquanto pronunciava as falas, pouco a pouco, acabou virando o Hiyuma Hoshi (de Kyojin no Hoshi). (Risos.) No fim das contas, o Seiya também é o amálgama de sangue, suor e lágrimas com força de vontade e empenho, certo? Já para o modelo, não é outro senão o Hyuma. É um sujeito de sangue quente e, sendo assim, meio que remete à adolescência do Hyuma.

 

“Quando se dirige à mamãe, o Hyoga é educadinho; como cavaleiro, é rude.”

 

Hori: O beisebol simplesmente se transformou em artes marciais? (Risos.)

Suzuoki: em decorrência de certa infantilidade, o Seiya é dado a rompantes, entrando de cabeça nas coisas. E, por causa do seu jeito de falar nessas ocasiões, acabam surgindo pontos em comum com o Hyuma, não é isso?

Furuya: Isso mesmo. É exatamente como quando o Hyuma diz: “Treinador, por favor, me deixe arremessar!” (Risos.) É a mesma sensação de quando o Pégaso diz: “Pessoal, vamos nessa!”

Hori: No tocante aos outros quatro, um pouco mais contidos, eles falam dando um passo para trás. Não transmitem aquele ardor do Seiya, não é verdade?

Horikawa: O mais frio deles é mesmo o Ikki. Ele passa uma impressão como se dissesse de um nível superior: “Vocês não passam de crianças!” (Risos.)

Furuya: Mas sabe… dessa forma, se todos ficam fazendo pose, ninguém se move. Então, o Seiya dá a cara a tapa, pronto para ser odiado por todos, e diz: “Vamos!”

Hori: Em contrapartida, apenas vendo os companheiros levando a pior, o Seiya não costuma ir ajudá-los. (Risos.) No final da batalha das 12 casas, eu mesmo levei uma surra ao me tornar o escudo do Seiya… Todo mundo o apoia dessa forma.

Horikawa: Obviamente, isso ocorre porque ele é o protagonista. Para deixarem sua estrela para o final, os quatro vão se sacrificando, dizendo um após o outro: “Eu cuido dele. Vá na frente”.

Hashimoto: Aí, o Seiya conclui sozinho.

Furuya: Bem, o fato é que, apesar de o Seiya possuir o poder para vencer todos os obstáculos sozinho, se ele o fizesse, o tema amizade não seria viável, não acham? (Risos.) É por isso que é dito que o Seiya vence no final recebendo o poder de todos. Assim, o tema se concretiza.

Horikawa: É porque o Seiya é o representante de todos.

Hori: Então, a amizade deu certo nas 12 casas e foi entrando na fase de Asgard. (Risos.) Entretanto, o Seiya realmente está estrelando sozinho a nova série, não?

Hashimoto: É que, como a saga das 12 casas foi um fiasco, seria ruim não deixá-lo estrelar, pelo menos no início, não acham? (Explosão de gargalhadas.)

Furuya: É para ser visto por todo mundo, não é? O protagonista atuar ativamente e tentar amealhar simpatia é o objetivo.

Hori: Sei, o objetivo, não é? Como suspeitava, o verdadeiro objetivo é dizer: “Já que o protagonista está sendo negligenciado, vamos repaginá-lo”, certo? (Risos.)

Furuya: É que não se sabia quem é o protagonista, não é? (Risos.) Mas… o fato de eu ter interpretado o Seiya como um moleque no início é uma das razões do contraste com os outros também existir. É por isso que, quando Asgard começou, eu tencionava deixá-lo mais adulto, mas continua o mesmo, não? (Risos.) Como Seiya é uma série cronologicamente progressiva, gostaria que permitissem que ele crescesse mais um pouco, que o deixassem mais adulto, sabe?

Hori: Afinal, é o protagonista.

Furuya: Ainda que não queira enfatizar, é isso mesmo. (Explosão de gargalhadas.)

 

“Hyoga de Cisne: belas técnicas e bela figura.”

 

As histórias da mãe contadas por Hyoga — a mesa-redonda finalmente atingiu seu clímax. De quem é a técnica mais legal? Ao fim do inesperado desenvolvimento, o mediador acabou disparando o Pó de Diamante?!

 

Mediador: Como a conversa sobre o Seiya veio à tona, gostaria focar nos cinco protagonistas. Que tal falarmos do Hyoga?…

Hashimoto: O Hyoga não consegue esquecer a mãe. Entretanto, desvencilhando-se dela, ele despertou o sétimo sentido e amadureceu.

Hori: Sabe, na época que o Ikki ainda era vilão, considerando que ele disse: “Como você ainda está ligado a esse tipo de coisa, não tem chance”, ele é a razão de o Hyoga conseguir romper essa barreira. Então, eu sou o seu mestre! (Risos.)

Furuya: Já que o complexo de Édipo do Hyoga é uma idiossincrasia, foi fácil construir o papel a partir desse norteador, não?

Hashimoto: Sim. Como há o lado do complexo de Édipo e o lado pujante do cavaleiro, são dois extremos. Com isso, o linguajar também. Quando se dirige à mamãe, o Hyoga é todo educadinho; como cavaleiro, é rude. *¹

Todos os presentes: É verdade. Faz sentido.

Hashimoto: Nesse sentido, definitivamente, a imagem do personagem, ou talvez seja melhor chamar de personalidade, acaba mudando diametralmente.

Horikawa: Quando está com a mãe, ele acaba colocando para fora o seu verdadeiro eu.

Hashimoto: É isso mesmo.

Suzuoki: O Seiya é do tipo brucutu; fala como um capiau*²… (Risos.)

Furuya: Não fala, não!!! (Explosão de gargalhadas.)

Hashimoto: Voltando a falar do Hyoga, os combates com seus dois mestres, o Cavaleiro de Cristal e o Camus, foram profundamente marcantes. Enquanto enfrentavam o Hyoga, passaram a impressão de que eram grandes mestres.

Furuya: A parte do Cavaleiro de Cristal foi comovente, não? fiquei com lágrimas nos olhos…

Hashimoto: O Camus também tentou fazer o discípulo despertar o sétimo sentido ao custo da própria vida, não é? Em oposição ao amor de tamanhos mestres, o amor pela mãe… E sendo exatamente por tal paradoxo que, mesmo derrotado, ele vem se reerguendo, creio que, além do indelével afeto pela mãe, ele não deve esquecer o afeto entre mestre e aprendiz. E, de fato, ele não pode esquecer, não é? É por isso que, quando se fala das cenas do Hyoga, essa aí sempre nos vem à mente. A cena do Cavaleiro de Cristal e do Hyoga duelando na planície congelada…

Hori: O Hyoga tem várias cenas famosas, não é?

Horikawa: Mas é notável a característica de não serem todas padronizadas.

Hori: Como o branco é o tom basilar dos cavaleiros do gelo, o desenho também é bonito, não? Mesmo o Pó de Diamante… é simples e belo…

Horikawa: Mas ali ele acaba dançando! Enquanto vocifera: “Pó de diamante!”, ele acaba dançando! (Risos.)

Hori: No entanto, quando se fala de algo másculo, impactante, o Dragão Ascendente de Rozan é o que há. Um dragão surge de repente…

Suzuoki: Sim, sim. Pensando nisso, o Meteoro de Pégaso é bem tosco, não? Só fica desferindo socos… (Risos.)

Hori: Umas luzes saem aleatoriamente… parece feito de qualquer jeito. (Risos.)

Furuya: Já estava esperando por isso. (Explosão de gargalhadas.)

Hori: Quanto ao Ave Fênix, do Ikki…

Furuya: Também dança, hein… (Risos.)

Hori: O problema é que o gorjeio da Fênix tem um ruído pavoroso: “Ugyahhh! Ugyahhh!” (Risos.)

Horikawa: Mas o nome “Ave Fênix” [Hōyoku Tenshō] é legal…

Suzuoki: O Shun só tem a Corrente Nebulosa, não é verdade?

Horikawa: Isso. Só arremessa a corrente.

Furuya: Aquilo é um pouco patético, não? (Risos.)

Hori: É, considerando a altivez com a qual ele brada: “Corrente defensiva, corrente ofensiva”…

Horikawa: Isso. Acabam passando por ela sempre que querem. (Risos.)

 

“Por intermédio de Seiya, quero transmitir que, embora complicada, a amizade é valiosa.”

 

Suzuoki: Sendo assim, em vez de uma corrente, podem acrescentar um chicote na nova série… (Risos.)

Mediador: Ora, assim vai acabar virando o mundo da “rainha fetichista”. (Explosão de gargalhadas.)

 

Ikki e Shun, o amor fraterno que se oculta na sombra de uma árvore

 

Vejam só! Começou de repente o papo de “mulherzinha”, que é contra as regras. Consequentemente, com o assunto enveredando para o amor fraternal de Ikki e Shun, o Ave Fênix e a Corrente Nebulosa devastam o recinto do colóquio! Leiam as histórias secretas!

 

Hashimoto: É mesmo! Como será que acabou a escola Filhos das Estrelas?

Hori: Todas as crianças se formaram, e se tornou um jardim abandonado, não? (Risos.)

Horikawa: A Miho pode ter arrumado outro namorado…

Furuya: Nada disso! (Risos.)

Horikawa: O lance com a Miho continua pendente, certo? É por isso que ela vai colocar o Seiya contra a parede, dizendo algo como: “Seja claro!” (Risos.) Não acham que seria bom se houvesse essa conversa em pelo menos um episódio?

Furuya: Mas, no caso do Seiya, também existe a Shaina e, ainda que pareça que a Marin é sua irmã, ele quase foi beijado pela Saori enquanto dormia… (Episódio 30.)

Suzuoki: Em que lugar?

Furuya: Na boca.

Hashimoto: Em que lugar…?

Furuya: Mas que diabos você está pensando?! (Explosão de gargalhadas.) É que eu estava desmaiado… Contudo, não houve progresso depois disso, entendem?

Hori: O Shiryu tem a Shunrei, não?

Suzuoki: Isso, a Shunrei. Mas não há muitas cenas com ela e, lamentavelmente, são só palavras como um “obrigado” ou coisas do tipo.

Hashimoto: No caso do Hyoga, só há a Erii, do filme.

Furuya: Não. No início, era a mamãe; depois, a Erii; e agora, mais uma vez, tem a Freya. As garotas sempre o acompanham para cima e para baixo. (Risos.)

Horikawa: Estou com bastante inveja… Ainda que, no caso do Shun, exista a June, parece que ele não tem segundas intenções…

Hori: No entanto, vocês todos têm sorte, não? Pelo menos as garotas de quem gostam estão vivas. No meu caso, a Esmeralda já foi desta para a melhor. (Risos.)

Mediador: Senhor Hori, o que o senhor acha do personagem Ikki?

Hori: Pessoalmente, gosto tremendamente do Ikki. Tanto as formas de aparição quanto as falas são fabulosas; portanto, penso: “sou um felizardo por fazer o Ikki”.

Furuya: Afinal, é o Ikki… O fato de ele aparecer sem falta quando pensamos que está na sua hora é muito legal… É como em Mito Kōmon, não é mesmo? Você é o estandarte em miniatura. *³ (Risos.)

Hori: Quando aquela musiquinha toca, “tchã, tchã, tchã, tchã!”, eu apareço.

Furuya: Apesar de todo mundo saber que ele vai aparecer após o chamado do Shun, é legal.

Suzuoki: Na próxima vez, quando ele estiver para choramingar: “Ikki!”, tapem a boca dele por trás… (Risos.)

Hori: Assim, não vou poder aparecer… (Risos.) Mas, entre as cenas célebres do Ikki, a luta com o Shaka é inesquecível. Devido à magnitude de suas forças, nenhum deles podia perder e, no final, ambos vão desaparecendo. Internamente, no instante em que ele teve certeza de que sua vida se consumiria, aquele breve discurso, “Shun, viva como homem ao lado de Seiya e dos outros”, é uma coisa que Ikki pensou na condição de irmão mais velho para o Shun, de quem ele vinha sendo o escudo, não é verdade? No último momento, quando não poderia mais estar ao lado de Shun, resignado, ele diz: “A partir de agora, se você não virar homem, não será mais digno de caminhar com a turma de Seiya”, não é isso? Aquela hora foi um ponto final no meu Ikki interior, sabe?

Horikawa: Depois daquilo, o Ikki não aparece.

Hori: Aparece. (Explosão de gargalhadas.)

Horikawa: Sendo assim, quero que feneça majestosamente… (Explosão de gargalhadas.)

Hori: Contudo, como você ouviu aquelas palavras, é pra você viver como um homem também! (Risos.)

Gostaria que fizessem mais cenas nas quais o Ikki luta por si mesmo, e não no papel de salva-vidas do Shun, sabe?

Furuya: Ao que parece, quer ficar independente. (Risos.)

Horikawa: Mas, se o Shun não estiver em apuros, ele não terá vez. (Risos.)

Furuya: Entretanto, ainda que ele gritasse: “Mano!!”, e o Ikki não desse as caras, o Shun, apesar das aparências, provavelmente conseguiria sair da enrascada sozinho.

Horikawa: Mas, se eu fizer isso, o mano vai acabar perdendo o seu posto. É claro que é tudo por causa do amor pelo meu irmão mais velho.

Furuya: O Ikki também… ao ser chamado, logo acabará aparecendo. (Risos.)

Hori: O problema é que fico esperando ao lado. Estou sempre escondido na sombra de uma árvore, mas acabo tendo de voltar… “Ah, hoje não tive vez…” (Explosão de gargalhadas.)

Horikawa: Mas, como o mano acabou de falar, ele não vai assumir a responsabilidade e segurar a minha onda até o fim. Então, mesmo que caia num dilema, quero tentar sair das enrascadas com minhas próprias forças. Se houver pelo menos um episódio assim, talvez as pessoas que estão vendo pensem que o Shun nem sempre é socorrido. Portanto, seria legal se, de vez em quando, eu salvasse meu maninho, certo?

Hori: Eu também penso assim. (Risos.)

Mediador: Onde foi a cena do Shun que mais o marcou?

Horikawa: A primeira coisa que me vem à cabeça ao falar do Shun de Andrômeda é a tomada dele abraçando o Hyoga na batalha das 12 casas…

Hori: Ele desistindo da própria vida… Aquela cena foi formidável.

Suzuoki: Um passo em falso, e também seria o mundo… (Risos.)

Horikawa: Basicamente, todos os cinco cavaleiros pensam assim, mas dizem que, ao permitir que outra pessoa viva mediante o autossacrifício, você volta a viver por intermédio desse ato.

Hori: Mas eu não fico abraçando homens! (Explosão de gargalhadas.)

Horikawa: É por isso que aquela é uma peculiaridade do pequeno Shun. (Risos.) Todos eles se sacrificariam, mas o modo de expressar essa abnegação é diferente. O que se mostrou naquele episódio foi a filosofia de vida do Shun, seu estilo de vida, não é verdade?

 

O discurso de Shiryu acerca do tema “amizade”

 

Nestes tempos abençoados pelo Diabo, ele prega a amizade. Um discurso apaixonado de Hirotaka Suzuoki sobre o tema do anime. Adornando o epílogo da revolta mesa-redonda, o Dragão Ascendente de Rozan explode!

 

Mediador: Para encerrar, claro que requisito o senhor Suzuoki, ou devo chamá-lo de Shiryu?

Suzuoki: A conversa sobre sacrificar a própria vida aconteceu agora, mas, falando de Seiya, é óbvio que o tema é a amizade chamejante, certo? E, hoje em dia, falar de amizade está incrivelmente fora de moda, não é mesmo? No entanto, penso que seria extraordinário se houvesse sacrifícios por amizade.

Furuya: É porque sacrificar-se para fazer algo por alguém não existe mais hoje em dia, não é?

Suzuoki: Hoje há muitas coisas horrendas, como o bullying… Acredito que, a despeito de ser um anime, Seiya é capaz de transmitir que, apesar de a amizade ser algo difícil, é muito preciosa. Ele apregoa: “Não esqueça a valiosa amizade”. Está dizendo: “Ao assistir ao seriado, dê uma boa olhada no amigo ao seu lado. Vocês conhecem as suas fraquezas? Estão se ajudando?”

Furuya: É óbvio que esse é o tema de Seiya, não?

Todos: Bem, irreprochável. Fechou com chave de ouro. (Risos.)

 

Registros Violentos!! Comentários sobre Seiya

 

 Masami Kurumada — Autor do Mangá

 

“Agora, na hora de pensar em novas ideias, as falas me vêm à mente com as vozes do anime.”

   Quando se fala de animes, eu costumava ver Kyojin no Hoshi e seriados do gênero, mas depois só houve séries de robôs, não? Entre essas produções, Kidō Senshi Gundam até chegou a me fazer pensar: “Oh, nada mau”. Na época das negociações para a conversão de Saint Seiya para o anime, como eu estava um pouco estagnado, senti que seria estupendo para alavancar a minha obra. (Risos.)  

   Depois que avançou para a fase do projeto, como tinha reuniões com o pessoal do estafe, que me visitava zelosamente, pensei que já tinha visto tudo; no entanto, como vocês podem imaginar,  fiquei muito emocionado quando assisti ao primeiro episódio. Minha obra passando na televisão, meu nome na abertura… (Risos.)
    Na TV, além da história oriunda dos quadrinhos, também existe a trama originária do anime, e, ainda que os cavalheiros do plantel a estejam construindo com todos os seus esforços, com todo o seu coração, o mangá tem um aroma característico do mangá, certo? Quando engendram esse conteúdo original, não importa o que façam, esse aroma acaba escasseando, e acontece de sentirmos que aquilo ali não é Seiya, sabe? Parece que os fãs é que estão percebendo mais essas partes. (Risos.)

   Quando se escuta diretamente a voz dos dubladores, ela é completamente diferente da voz de alguém como eu, sabe? Fiquei morrendo de inveja daquelas vozes. (Risos.) Além disso, como não sou especialista em dubladores, quando vi na televisão, aceitei de bom grado: “Ah, então ficou assim…”

   Hoje, quando estou bolando o esqueleto das histórias, as falas dos personagens me vêm à mente com as vozes do anime. (Risos.)

 

Yoshifumi Hatano — Produtor da Tōei Dōga

 

“Se não for uma pessoa capaz de fazer novelas de época e Shakespeare, não pode fazer Seiya.”

 

   Na ocasião do projeto, quando pensei em endossar a obra Saint Seiya, eu o fiz em virtude de dois fatores, que a tornam ideal para o televisionamento e que talvez sejam a razão de a obra estar amealhando a simpatia das crianças: um é o fato de estar relacionada a “estrelas” e constelações. Já que também há o envolvimento dos mitos da Grécia, é também romântica, não é? Ademais, está intrinsecamente entrelaçada com os temas “amizade”, “superação” e “vitória”, a política editorial da Shōnen Jump. Contudo, no horário estabelecido para acontecer a difusão, é transmitido em Kantō o Manga Nihon Mukashibanashi. Foi um baque muito forte. (Risos.)
    Por essa razão, o início foi extremamente tenso, entende? Já haviam se passado seis meses quando começamos a vislumbrar que duraria mais de um ano. A base econômica dos patrocinadores que financiariam o programa foi estabelecida, e a produção foi fluindo bem, centrada no trabalho do senhor Shingo Araki e do senhor Tadao Kubota.
    No que tange à nomeação do senhor Araki, talvez se deva ao curso do desenho do senhor Kurumada. Quando considerei isso, o primeiro nome que me veio à mente foi o do senhor Araki. Tenho trabalhado com ele em muitas ocasiões, mas a primeira vez que trabalhamos juntos foi na série de TV Shōnen Tokugawa Ieyasu, acho. Penso que passei a considerá-lo uma pessoa fantástica ao vê-lo mandar ver nas fichas ilustradas de personagens. Como se trata de uma pessoa extremamente perfeccionista, em Seiya também ele alarmava bastante: “É difícil!” (Risos.)
    Mas eu sou realmente grato ao senhor Araki e ao senhor Yokoyama por terem compreendido tão bem a produção em seu trabalho. Talvez como resultado disso, sente-se também a beleza presente na própria obra em si.
    Uma vez que a animação é o desenho, ele deve ser soberbo, não é verdade? Mas não é só ser bonito… Tenho a opinião de que o ponto de partida é exibir na produção um pouco mais daquelas sensações da vida real. Podemos chamar de familiaridade? Como quando a gente mete a mão na comida ao estar com fome… (Risos.) É melhor quando também há esse tipo de sensação cotidiana, não é?
    Então, apesar de criarmos coisas como o quarto do Seiya no porto, enquanto a história avança, ela rapidamente vai indo na contramão. Já que a voltagem da ação é alta, sempre acabamos nos inclinando em sua direção. Apesar de a vida real ser fascinante, essas partes são bem difíceis de fazer.
Passando aos personagens, ainda que todos os cinco garotos da turma de Seiya possuam suas idiossincrasias, Seiya é um universo de competição em equipe, certo? É por isso que é a imagem de um quinteto, não é? (Risos.)
    Durante toda a série, pensa-se que é uma novela de época. Interjeições como “que ridículo!*” aparecem, certo? (Risos.) Mesmo no tocante aos dubladores, se não for alguém capaz de transmitir esse tom, não está apto para a tarefa. É por isso que, para mim, um ator incapaz de construir uma novela de época não pode fazer Seiya. Ser teatral…
    É algo que falo frequentemente nesse sentido, mas, “se não for capaz de fazer Shakespeare, é impossível fazer Seiya”.
    Como nada menos que isto é demandado, doravante também, darei o meu melhor. É apenas isto.

*Com o significado de “disparate”, “笑止!” (shōshi!) é uma expressão vetusta, característica de dramas ambientados no período feudal e demais novelas de época.
 

Shingo Araki — Character Designer e Diretor de Animação

 

“Estou batalhando para fazer a turma de Seiya, que ficou muito magra, voltar ao normal no filme deste verão.”

 

    Quando houve a primeira conversa a respeito do character design do anime, li o mangá para ver e achei os personagens bem-feitos, porque, além de estarem imbuídos de todos os elementos necessários a um personagem, a caracterização como desenho estava feita. Assim, me esforçando para conseguir reproduzir isso em sua forma natural na tela, criei os personagens de acordo com o mangá. Com o objetivo de deixá-lo atraente como anime, e não idêntico ao mangá, fui avançando no trabalho, sempre com o beneplácito do senhor Kurumada.

   Dessa forma, sendo acudido pela Himeno (Michi) nas coisas complicadas, personas como o Shun e a Saori, que, não obstante ser uma beldade, tem fibra, o design dos personagens, em termos gerais, foi fácil de fazer. (Risos.)

    Como o fator que precisei ter em mente enquanto desenhava era usar um traço vigoroso mas flexível, pensei também em Ashita no Joe, um trabalho que fiz no passado. Além do mais, como posso dizer, o espírito de Seiya?… A parte psicológica lembra Kyojin no Hoshi. (Risos.)

   O embate que eu desenhei durante uma eternidade entre o Hiyuma Hoshi e o Mitsuru Hanagata em Kyojin no Hoshi, por exemplo… em cada episódio que vejo da batalha das 12 casas, acho o entretenimento dos embates bem similar, você não acha? é baseado naquele padrão de o episódio ir ficando eletrizante até terminar justamente no clímax, continuando na próxima semana.
   Por essa razão, mesmo que Joe e Kyojin no Hoshi tenham cenários completamente diferentes do de Seiya, tais componentes ainda vivem e dão suporte à série.

   Então, Seiya começou e, haja vista os personagens convidados também estarem no mangá, quase todos foram fáceis de converter, mas, no meio do processo, mais ou menos onde os cavaleiros de aço surgiram, houve um período em que os antagonistas passaram a seguir uma rota original, tempo em que aparecia um personagem exclusivo quase que a cada oportunidade. Nesse período, eu estava sempre um pouco desnorteado para delinear os sucessivos novos personagens mantendo o toque kurumadiano, sabe?

   Desses personagens, penso que o Cavaleiro de Cristal ficou interessante. Além disso, também entre os convidados, estou fazendo Seiya e seus amigos quando crianças. Falando neles, a cena dos pequenos Ikki e Shun caminhando no Sai no Kawara [limbo ao qual as crianças que morreram prematuramente são enviadas para purgar o sofrimento que suas mortes causaram aos pais] me deixou profundamente impressionado. É que, como a turma de Seiya também esbanja vivacidade nos tempos de menino, há horas que penso que seria legal se pudesse desenhar mais essa fase.

   Quanto ao fato de o desenho ter mudado ao chegar até aqui, devo dizer que, a partir dos desenhos do início, questionando-me se garotos não deveriam ser mais delgados, fui ajustando-os pouco a pouco; entretanto, acabou chegando a uma situação em que eu mesmo estou achando a turma de Seiya um pouco fina demais… (Risos.) Tanto as características faciais quanto os corpos. Por isso, neste filme de agora, a proposta é que exibam uma aparência apropriada para a idade. (Risos.)

   Com a produção em seu sprint final, nossas vidas estão um deus nos acuda, mas só pudemos fazer o terceiro filme porque gozamos de tamanha popularidade. Então, a meu ver, temos o dever de fazer algo substancial para não deixar que essa popularidade caia.

   Mesmo que agora eu esteja apegado aos cinco protagonistas, doravante, gostaria de perseguir a minha própria imagem de um menino.

 

Kōzō Morishita — Diretor de Núcleo

 

“Eu quero retratar a filosofia de vida dos homens. Não tem havido trabalhos desse gênero ultimamente.”

 

    Antes de fazer Seiya, eu estava engajado num trabalho em cooperação com os Estados Unidos, mas, para a minha surpresa, nele pude fazer uma miríade de coisas. Logo, Entrei no primeiro episódio de Seiya embalado com o mesmo frenesi e acho que esse afã continuou me guiando. Nesse ímpeto, pude seguir com o episódio 2 e o 3 num só fôlego. Eu Senti que realmente acertei em cheio. É que pude pensar em várias coisas relacionadas à ação no período em que estive afastado das séries de anime do Japão. Também aconteceu de eu dar tudo que podia… até porque, no começo, eu não sabia até quando o programa ia durar. (Risos.)

   Em poucas palavras, Seiya é uma obra do campo que é a minha especialidade. Nesse sentido, é um trabalho do qual gosto demais. É claro que a força do estafe também é imprescindível, não é mesmo? O senhor Takao Koyama, da composição do enredo, tem um talento enorme e rouba toda a atenção dos produtores e do pessoal. Ainda que tenha sua imagem fortemente atrelada à comédia, ele é daqueles escritores capazes de escrever todo tipo de coisa. É claro que o senhor Yoshiyuki Suga também é um profissional de primeira linha.

   Desde que trabalhei com o senhor Shingo Araki na produção de Ufo Robo Grendizer, ele se engajou em incontáveis trabalhos do gênero shōjo, ao passo que eu enveredei para o ramo dos robôs. Mas eu nunca tirei os olhos dele. Foi por isso que pensei que ele daria conta de desenhar o mundo de Seiya, do senhor Kurumada. A aspiração que tenho para este trabalho, agora na TV, no horário de 7h da noite, é fazer coisas maravilhosas, coisas lindas. Quanto a essa beleza de que falo, podemos pegar como exemplo até mesmo as armaduras de bronze. Eu dei as especificações para que a luz incidisse no branco, tornando o brilho visível numa armadura verde ou rosa… Ainda que tenha me encarregado sozinho de toda essa coordenação de cores, surpreendentemente, deu resultado, não? Quando a indicação das cores foi completada, vendo essas partes, tive aquela sensação de dever cumprido. Em compensação, a fotografia foi o que mais deu trabalho. (Risos.)

   Eu jamais havia feito tantas fotos numa série para a TV. Por conter tomadas do mesmo nível das produções direcionadas ao cinema, o trabalho fotográfico é imenso. Além disso, uma vez que a porteira é aberta, o pessoal vai aumentando cada vez mais. Mesmo no que se refere às células, como se deve anexar uma cópia em todos os exemplares, é complicadíssimo. (Risos.) Mas, com esse furor e um grande aporte de dinheiro, dá para fazer uma coisa boa. Consequentemente, sempre sou escorraçado pela companhia. (Risos.)

   Ainda que a época de Seiya seja a atual, como, entre outras coisas, estão lutando na Grécia, em alguns aspectos, há partes típicas de novelas de época. É por isso que, mesmo com as pessoas da Grécia sendo pessoas modernas, os trajes brancos transmitem mais o ambiente; por outro lado, há coisas como aviões cortando o céu… (Risos.) Embora haja partes que parecem do passado mesmo estando no presente, o mundo da produção é tão sólido que pensamos se essas coisas ficcionais não são reais.

   Por intermédio desse universo, gostaria de ir realçando a filosofia de vida dos homens. Já que, ultimamente, não há obras assim, quero continuar apelando a coisas como a masculinidade, como um homem chora, como um homem ri… Acho que será ótimo se as garotas também compreenderem isso.  

   No entanto, responder qual é o menino preferido entre os cinco heróis é problemático, não é mesmo? Bem, mesmo que houvesse algum predileto, nunca aconteceria de a confecção da produção ser levada por isso.

   Depois de dois anos fazendo a série, os personagens do anime ficaram tão familiares que sinto como se fossem atores de carne e osso. E me pego questionando quem eu deveria usar para determinado papel. (Risos.) Porque a convivência é grande. (Risos.)

 

Tadao Kubota — Design Artístico

 

“Em partes difíceis como as localidades mitológicas, o design leva tempo.”

 

    Mesmo que chamem de design artístico, na verdade, o desenho de quase todas as imagens de fundo fica a cargo de outras pessoas (do mesmo estúdio). No meu caso, o trabalho é com as fichas de criação, design, painéis artísticos (esboços de imagens e afins) e coisas do gênero. Tenho feito isso desde o início da série televisiva.

   A priori, vendo o mangá, fiquei pensando em como as armaduras e coisas do tipo seriam convertidas em anime na produção de Seiya, mas, com o sólido conceito produzido pelo senhor Kōzō Morishita, foi fácil me imiscuir. Entretanto, porque existem cenários complicados como os das partes mitológicas, o trabalho no design levou um tempo considerável.

   Das coisas que aparecem na história, pegue como exemplo a localização das ruínas históricas da Grécia chamadas de Santuário… Mesmo no que se refere à criação de cenários, Uma vez que há inúmeros lugares remotos e desabitados como palco, fico um pouco preocupado com o fato de as características contemporâneas que denotam a época atual acabarem desaparecendo.

   Contudo, deixando isso de lado, para produzir um universo sólido, dividi essas áreas no estágio da criação das fichas. Ademais, como houve várias mudanças de cenário no decorrer da série, para o estilo grego, para o chinês… esquematizei cada um deles.

   Com Tóquio sendo o cenário inicial, achei o desenvolvimento fascinante, mas, como o cenário ficou um pouco padronizado na batalha das 12 casas… (Risos.) geralmente, pude prever o resto.

   Tecnicamente, por se tratar de uma produção com transmissão luminosa consideravelmente alta, mesmo que eu resolva exibir um desenho (de fundo), trabalho cuidadosamente, considerando os efeitos.

Seiya é uma produção fantástica para quem a vê pela alta individualização da personalidade de cada cavaleiro. Deve ser por isso que temos podido desenvolver de forma tão interessante, não?

   Com os desenhos do senhor Araki sendo tão lindos, gosto de todos os cinco cavaleiros de bronze da turma de Seiya. Por favor, fiquem de olho, pois também darei o meu melhor de agora em diante.

 

 

Takao Koyama — Roteirização da Série

 

“Tive problemas enquanto escrevia o roteiro por querer, inconscientemente, introduzir piadas.”

 

   Como eu pensava que, no que tange a animes, pelas incontáveis comédias em que havia me engajado até o momento, era considerado praticamente um escritor de comédias, quando o senhor Kazuo Yokoyama, produtor da Tōei Dōga, me perguntou se eu não gostaria de fazer os roteiros de Saint Seiya — ainda por cima, como chefe da composição da série —, honestamente, eu fiquei surpreso.

   É que não há nada de comédia em Seiya e, além disso, trata-se de um conteúdo de ação diametralmente oposto ao humor, certo? Mas eu não sou apenas um escritor especializado em comédias. Algo me dizia: “Eu também posso escrever uma ação”.

   Respondendo por que me queria no roteiro, o senhor Yokoyama disse: “Mesmo que a direção do mangá consista num número extremamente elevado de cenas de luta, no caso do anime, não há apenas cenas de luta. Retratando mais o cotidiano de Seiya e dos demais, a empatia pelos personagens é acalentada, e as cenas de batalha sobressaem. É por isso que um escritor com o seu senso de humor é preferível.”

   Graças a Deus, o programa se tornou muito popular, e talvez tenham entendido que não sou só um escritor de comédias. No entanto, o início foi duro, entende? Como estava escrevendo praticamente sozinho, era fisicamente desgastante; e, sendo que até então eu só havia me dedicado substancialmente a escrever comédias, eu queria introduzir piadas a todo custo. (Risos.) Por ser fisicamente extenuante e também por ficar mentalmente suprimindo a vontade de fazer piadas, acabei adoecendo no meio do processo.

   A direção do mangá e do anime difere em várias partes; a maior mudança que tomei a liberdade de empreender foi deixar de fora a configuração na qual todos os cavaleiros eram filhos de Mitsumasa Kido. Penso que a produção de nome Saint Seiya retrata as várias formas de afeição entre os seres humanos, como a amizade, o amor decorrente de laços sanguíneos, o amor de irmãos e o amor entre mestres e pupilos. Se todos os cavaleiros tivessem o mesmo pai, isso culminaria no fato de serem irmãos, e essa variedade de formas de afeto se turvaria. Foi por isso que decidi usar Shun e Ikki para representar o amor de irmãos.

   Pessoalmente, o Shiryu é o meu personagem favorito, sabe? Ele é o mais completo dos cinco e não possui complexos. Em virtude da relação bem definida com o Mestre-Ancião e com a Shunrei, o roteiro foi fácil de escrever.

   A propósito, que diabos aconteceria na Guerra Galáctica?! (Risos.) Ah, eu também gostaria de ver o rosto da Marin…

 

Yoshiyuki Suga — Roteirização da Série

 

“A ideia do mangá chamada cosmo me permitiu preencher até as partes originais do roteiro.”

    Eu entrei no roteiro mais como um substituto interino na ocasião em que o senhor Koyama ficou doente, mas, posteriormente, passando a me envolver continuamente, também me foi permitido escrever A Lenda dos Jovens Carmesins [A Batalha de Abel], que estreia neste verão.

   Eu tive o privilégio de ler o mangá depois que ficou decidido que eu escreveria (Risos.), mas fui impactado pela ideia que o senhor Kurumada chamou de cosmo, sabe? Então, vi que as armaduras, os cavaleiros, as constelações… essas coisas estão sendo muito bem empregadas dentro da mitologia da Grécia.

   O cosmo é a tremenda potencialidade que o ser humano oculta, ao passo que as armaduras são completamente diferentes dos robôs, uma coisa viva, não? Por isso, sua função de autorregeneração é tão fascinante. Embora haja partes originalmente escritas por mim, senti que o que me permitiu inflá-las foi o mangá, que oculta gigantescas possibilidades.

   Eu também conheci o senhor Kurumada. Além de ser um sujeito másculo, ele é bastante modesto, sabe? Tenho a sensação de que, mesmo em relação à produção de textos, ele vai amealhando mais e mais coisas interessantes no intuito de encontrar entre elas o universo dos homens. Isso me fez sentir uma grande empatia.

   Dos cinco cavaleiros de bronze, o Ikki é aquele para o qual tenho mais facilidade de escrever. Posso elencá-lo como o número 1. Ikki resolve tudo em uma ou duas cenas. É o Entediado Vassalo do Xogum. (Risos.)

   Eu sou fascinado por esse tipo machão, fora da lei. Bem, apesar da infinidade de coisas que escrevi protagonizadas por eles [cavaleiros de bronze], o que mais me marcou foi o episódio 33, O Conflito do Tigre e do Dragão! As Lágrimas do Dragão Cego. Mesmo fazendo uso do Shiryu, ainda que o personagem chamado Ōko seja exclusivo do anime, o aparecimento desse companheiro de treino do Shiryu é uma saga original que retrata o universo kurumadiano.

   É uma história que escrevi com base nos apotegmas que dizem que, com o cosmo, pode-se destruir até o destino inexorável e que o ser humano possui várias potencialidades. Portanto, aqui também está o cosmo, mas, por exemplo, o ataque fruto do cosmo… é algo diferente de se atirar sobre o inimigo para travar uma peleja de socos; existe a pressão dos golpes… há golpes parecidos com visões e, em meio às batalhas, há a chamada estética, a concepção artística das lutas.

   E, sim, claro que existe também a diversão de se conseguir realmente processar isso em termos de anime. Mesmo que a luta aconteça na escuridão, o universo vem à tona, transcendendo o espaço-tempo. Eu acho que a magia de Saint Seiya como animação está nas partes que nos permitem sentir tal expansão.

   Se não houvesse a ideia chamada cosmo em Seiya, se fosse apenas sobre artes marciais, eu e também o senhor Koyama poderíamos não ter continuado na série, entende?

 

Maestro Seiji Yokoyama — Núcleo Musical

 

“Trata-se de uma produção felizarda, na qual as pessoas do estafe dão valor à música.”

 

   Considerando que eu já havia trabalhado, em programas diferentes, com o senhor Yoshifumi Hatano, com o senhor Kōzō Morishita e também com o senhor Morihiro Kawada* (produtor da TV Asahi), nosso reencontro em Seiya foi como uma reunião de ex-alunos, sabe? (Risos.) Sendo assim, foi fácil penetrar na produção.

   No caso dos animes com difusão comercial na TV, no que tange à música, a praxe é compor todas as músicas de fundo que usarão no seriado e entregá-las antes de a transmissão se iniciar; contudo, particularmente em Seiya, incluindo os filmes, tenho recebido o favor de me permitirem gastar mais do que o usual em animações convencionais com orquestras sinfônicas e afins.

   Na medida em que o pessoal do estafe, começando pelos produtores, dá valor à música, é uma bênção. Na hora de fazer as músicas, como meu método consiste em, primeiramente, pedir que me informem sobre os personagens e, inspirado por isso, construir uma imagem interna e ir escrevendo, não costumo ter muito contato com o mangá ou script. Quanto à música em si, inclusive em Seiya, esforço-me para fazer um som asséptico, músicas sem vulgaridade.

   Neste ano, recebi o Prêmio da Música de Animes por Seiya; estou feliz por terem considerado que o modo que as fiz é compatível com os personagens desenhados pelos senhores Kurumada e Araki. Na verdade, acho que tudo se deve ao apoio dos fãs, por sempre assistirem à transmissão.

   É claro que eu também estou envolvido, mas, de qualquer forma, os desenhos são incríveis. (Risos.) São tão minuciosos, tão detalhados que o pessoal do estafe deve ficar em apuros toda semana. Por ficar tão íntimo dos 5 protagonistas, eu sofro como se fossem da minha família… (Risos.)

   Como fico presente até a finalização dos filmes cuja música é de minha responsabilidade, no momento de assistir à primeira prévia, meu coração já fica palpitando. Sou tão fã da Shaina que pedi ao pessoal do estafe uma imagem em celuloide. (Risos.)

   O filme deste verão também… Eu gostaria que viessem aos cinemas para vê-lo sem falta.

*Obs.: embora não se possa precisar se a confusão foi gerada pelo profissional responsável pela transcrição dos depoimentos ou pelo maestro Yokoyama, os nomes dos produtores da TV Asahi Morihiro Katō e Masayoshi Kawata foram amalgamados.
 
 

Hiroaki Matsuzawa — Composição de Temas Sonoros

 

“O primeiro episódio, no qual a música-tema passou pela primeira vez, também foi profundamente marcante.”

 

   Quando se fala de temas sonoros de animes, mesmo que sejam inferiorizados como música em alguns lugares, nós (Make-Up) já nos agarramos a Seiya amarradões, com absolutamente tudo que temos. No meu caso, como foi a primeira vez que escrevi uma música para uma letra pronta, no início, eu fiquei inseguro. Mas, após a primeira barra de compasso, como posso dizer, fui totalmente tragado e fiz numa tacada só.

   É por isso que, ao assistir à transmissão televisiva, posso dizer que o primeiro episódio foi o mais marcante. Afinal, foi a primeira vez que esse tema sonoro passou.

   Posteriormente, quando a televisão passou para a nova fase, mudou para um novo tema, mas, desta vez, a melodia veio primeiro. No entanto, não saiu fácil como na ocasião do primeiro tema, e fiz 2 músicas no final das contas. Então, sofri tentando me decidir pela melhor.

   O sucesso do tema musical me rendeu grandes oportunidades e, daqui para frente, conto com uma participação ativa também em animes.

 

Masayuki Akehi — Direção

 

“A figura dos ‘jovens de visão’ ainda não mudou.”

 

   Por haver cinco heróis, o que me preocupa na direção de Seiya é extrair quem são os principais nos episódios. Em meio à confusão, acaba-se perdendo a noção do que se quer retratar e, assim, o sentido da direção acaba desaparecendo.

   Talvez seja porque fiz a história do episódio 32, da ilha Rainha da Morte, mas penso que, entre aqueles cinco heróis, o Ikki é o mais interessante. Deve ser por ter ficado impressionado com as cenas em que, por amar a Esmeralda, Ikki aprende a tristeza de lutar e a alegria de viver. Trata-se de um homem muito bom.

   Quanto à situação dos jovens de visão que apareceram numa sequência de seriados de robôs de antigamente, a exemplo de Mazinger Z, eu sinto que, mesmo que a roupagem tenha mudado, não é muito diferente.

   Penso que Seiya também é assim; da mesma forma que os belos personagens do senhor Araki daquela época estão novamente chamando a atenção das pessoas nos dias de hoje, não é diferente.

 

Shigeyasu Yamauchi — Direção

 

“É que o Seiya é a base da produção, o ponto de partida.”

 

    O (trabalho na direção do) filme de verão de Seiya agora entra em seu estágio final, mas, na época que eu estava fazendo a série de TV, embora se possa dizer que Seiya e os demais são super-homens, como não passam de meninos, eu me esforçava para retratá-los como seres humanos normais tanto quanto fosse possível.

   Não importa que seja o Seiya, algo como saltar de uma só vez no topo de um prédio de 3 andares é esquisito… No entanto, quando a luta começa, quase sempre, tudo fica absurdamente irreal, não é mesmo? (Risos.)

   Se for o caso de lutar, mesmo que acertar o oponente seja a base dos combates e o cosmo seja emitido, no final das contas, as contendas são decididas com a pose após desfechar o ataque.

   Embora eu tenda a apreciar personagens como a Shaina e goste do excêntrico Jamian, o domador de corvos, o Seiya é o meu preferido entre os cinco. Ele também é irritante… (Risos.) Mas é que o Seiya é a base da produção. É o ponto de partida ao qual sempre se deve voltar a fim de não dar espaço demais aos outros personagens.

   Já que no filme de agora retornarei a esse ponto de partida, por favor, assistam à produção. (Risos.)

 

Tomoharu Katsumata — Direção

 

“A ideia de ‘luz e sombra’ dos cavaleiros negros foi fascinante.”

 

   Falando do Seiya em que trabalhei, foi só o período inicial da série de TV, mas enquanto fazia, achei a história dos cavaleiros negros daquela época interessante. Esse conceito de frente e verso, de os mesmos cavaleiros aparecerem também entre os inimigos… Então, no caso do Pégaso, se pode retratar a sua dualidade, os dois lados da moeda.

   Talvez possamos dizer que existe a sensação de que os pontos se encaixam ao jogarmos no lado dos cavaleiros negros o que não seria possível retratar se houvesse apenas uma parte.

   A obra original do senhor Kurumada… penso que são os quadros (do mangá) que estão dando resultado. É por esse motivo que, no anime, o trabalho do diretor do episódio é o jeito de concatenar esses quadros, um por um. Também é nessa parte que ele tem a sua capacidade posta à prova, não é mesmo?

   Acrescente a isso os soberbos personagens do senhor Araki e a representação em desenho de coisas como o cosmo, e o fascínio é recebido.

   A partir de agora, também pelo fomento de jovens profissionais para o estafe, gostaria que continuassem fazendo ainda mais produções. Mais do que nunca.

 

Kazuhito Kikuchi — Direção

 

“Uma produção que demandou tempo e esforço inimagináveis até então.”

 

   Houve um número considerável de episódios do Shiryu nas vezes em que eu estive a cargo da direção, razão pela qual posso dizer que ele é o mais fácil de retratar. Embora eu prefira os personagens diretos aos complexos, se formos até o Seiya, ele é meio tapado. (Risos.)

   Em contrapartida, por ter se desviado uma vez, o Ikki é cínico. Mas, de alguma forma, isso fica parecendo cômico. (Risos.)

   No papel de vilão nas histórias que fiz, o Máscara-da-Morte foi o que me deixou mais impressionado. Ele sequer cogita a possibilidade de se regenerar até bater as botas; é mau mesmo.

   Ao comparar Seiya com as séries de TV convencionais, com um colossal volume de desenhos e fotografias, bem como de efeitos acústicos e quesitos do gênero, é uma produção que exige uma inimaginável quantidade de tempo e dedicação.

   O senhor Araki também não fica atrás. Considerando que ele ajusta habilmente o storyboard e, enquanto faz a sua própria direção do episódio ao reconstituí-lo por si só, ainda se encarrega dos desenhos, eu o acho realmente estupendo.

   Portanto, façam o favor de continuar acompanhando até o final.

 

Susumu Ishizaki — Direção

 

“Estou sempre pensando em como retratar o cosmo.”

 

   Na primeira vez que li o mangá, fiquei surpreso com a abundância de ideias, que se sucediam sem parar. Tudo é resolvido com o cosmo. Eu achei brilhante. (Risos.) É por isso que estou sempre pensando em como colocar o cosmo no desenho, sabe?

   Ainda que Seiya seja um conteúdo de ação, mesmo sendo por amor, mesmo não havendo óbices, penso que uma causa justa é sempre imprescindível. É por isso que, enquanto a estou retratando, eu quero mostrar que a ação é deste jeito.

   E, mesmo que a mais nobre das causas seja o padrão de lutar para proteger uma garota, essa garota é a Saori, que antes eu detestava, mas que hoje é a minha favorita. (Risos.)

   Considerando que o senhor Kōzō Morishita criou a rota atual desta produção e que nós fomos impulsionando a expressão da imagem, pelo menos no que diz respeito à minha pessoa, mesmo mantendo essa representação, eu gostaria de ir além.

 

Mitsuo Shindō — Direção de Animação

 

“Se não for lindo, não é Seiya.”

 

   Além do trabalho de desenhar, entre outras coisas, ensino autodefesa e, muito embora eu ame as artes marciais, na hora de desenhar animação, pode ser melhor que um leigo o faça, dada a liberdade para exagerar na ação. (Risos.)

   No tocante ao desenho, por ser o Araki, é a batida do finado Mushi Pro., certo? Já que eu também estava no Mushi, é uma parceria iniciada desde que o Araki entrou na companhia. Mas o Araki desenha o tempo todo e também é do tipo artista, ao passo que eu sou do tipo operário, um peão mesmo. (Risos.)

   Quando eu estava a cargo dos desenhos, teve um episódio que o Shun se debruça sobre o Hyoga, que está caído, abraçando-o e o esquentando… Naquela época, eu fiz o Shun com face de mulher deliberadamente, entende? Em outras palavras, se uma parte for mulher, não existe aquela sensação de estranheza, não é? De homem com homem. (Risos.) Afinal, se não for lindo, não é Seiya.

   Mas, na hora do close nos olhos, sem entender quem é quem, teve um momento em que desenhei um no lugar do outro. (Risos.)

 

Nobuyoshi Sasakado — Direção de Animação

 

“Eu tenho tratado o Shun praticamente como uma mulher.”

 

   O timing é afiado, e a composição da tela é sólida nessa produção. Quanto a esses quesitos, é difícil harmonizar os desenhos com os outros episódios para não haver aquela sensação de que as coisas estão fora do lugar.

   Das cinco pessoas, como se espera do protagonista, o Seiya é o mais fácil de desenhar, seguido pelo Shun de Andrômeda. Costumo gostar mais do Shun, pois não aparecem muitas mulheres. (Risos.) É por isso que eu o trato praticamente como uma mulher. (Risos.)

   Ainda que o senhor Shingo Araki seja o meu grande senpai e que eu o conheça desde os tempos de Ashita no Joe, talvez se possa dizer que ele mudou por volta da época de A Rosa de Versalhes… os desenhos foram ficando mais e mais lindos. Ele é um estudioso, sabe.

   Devo chamar de estilo Takarazuka*? No final das contas, Seiya não prende a atenção quando os personagens não são formosos. Creio que realmente é uma produção que demanda um poder de desenho dessa magnitude.

   Em termos de conteúdo, como se situa nas imediações de um mundo onírico, acho que seria bom se houvesse mais um pouco de aspectos com ares da vida cotidiana. Por exemplo, seria legal se a Shaina visitasse o Seiya vestida com um quimono japonês, não é mesmo? (Risos.)

*Estilo teatral autóctone do Japão, o Takarazuka consiste num gênero dramatúrgico interpretado exclusivamente por mulheres.

 

Masahiro Naoi — Direção de Animação

 

“Em Camus versus Hyoga, finalmente tive uma experiência de verdade como diretor de animação.”

 

   Antes de fazer Seiya, eu estava em Hokuto no Ken; como desenhava personagens que eram montanhas de músculos, o início foi problemático em função do toque totalmente diferente, entende?

   Nos últimos tempos, eu finalmente venho me acostumando, mas, não sei por que, partes como a impressão dos olhos são particularmente difíceis de desenhar. Já que, com o senhor Araki, até o vaivém dos cabelos é gracioso, tenho que ter atenção nessas partes.

   Das ocasiões que trabalhei como diretor de animação, fiquei muito impressionado com o Camus e o Hyoga duelando no episódio em que ambos acabam congelados. Talvez eu possa dizer que foi a primeira vez que fiquei satisfeito com o resultado, sentindo que eu finalmente poderia ser considerado um diretor de animação, sabe?

   Até agora, eu estive tentando me aproximar do desenho do senhor Araki; dessa forma, agora que isso aconteceu e que enfim passei a me divertir no trabalho, quero continuar me esforçando.

   É que, no início, eu estava tão focado que não tinha cabeça para mais nada. A partir de agora, será ótimo se puder trabalhar com prazer.

 

Eisaku Inoue — Direção de Animação

 

“Desenhar aquela cabeleira do Shiryu é penoso.”

 

   Inicialmente, eu participava de Seiya fazendo imagens-chave, mas algo aconteceu a um diretor de animação, e acabei entrando em seu lugar de uma hora para outra. (Risos.)

   Como não tenho o know-how, a bagagem que possibilita o desenho de homens como o senhor Araki, capazes de continuar incessantemente sem destruir as próprias formas, tive de quebrar a cabeça em muitas partes.

   É que considero personagens reais mais fáceis de desenhar. Mesmo desenhando o Shiryu, aquele cabelão é um sofrimento… (Risos.) Acabo com vontade de cortá-lo. (Risos.)

   É por isso que, ultimamente, mais que o desenho em si, na hora de desenhar, tenho considerado apenas quesitos como a performance dos personagens, o que eles têm em mente.

   Ainda sobre os desenhos, eu li o mangá do senhor Masami Kurumada em conformidade com o trabalho e, a despeito de ter gostado dos desenhos, penso se não seria muito simplório se aparecessem daquele jeito na TV. (Risos.)

 

Tomoko Kobayashi — Direção de Animação

 

“Eu amo a valentia do Seiya, que mexe com o meu instinto maternal.”

 

   Mesmo que só tenha lido o mangá depois de passar a fazer Seiya, já estou com o sangue fervendo, hem… (Risos.) É o meu primeiro contato com os personagens do senhor Araki, mas fico pensando em como alguém pode ser capaz de desenhar figuras tão adoráveis… Com a pressão que também existe em função disso, ando meio pra baixo nos últimos tempos. (Risos.)

   Falando dos personagens, gosto mesmo é do Seiya. Sinto que toda aquela bravura apetece o meu instinto maternal. (Risos.)

   Paradoxalmente, eu também adoro personagens de índole excessivamente espúria, como o Saga e o Máscara-da-Morte. Até um tipo como o Máscara-da-Morte fica mais e mais adorável à medida que o desenho. (Risos.) No caso da ala feminina, gosto da Shaina. Ela é incrivelmente feminina.

   Por mais surpreendente que possa parecer, para mim, as cenas de luta e afins são, relativamente, as mais fáceis de desenhar. Como as expressões de dor repletas de beleza… (Risos.)

   Como o pessoal ainda será muito torturado, continuem de olho, hem.

 

Keiko Han — Dubladora da Saori

 

“Acho que Atena pode estar alojada em meu interior .”

 

   Embora eu mesma a esteja interpretando, não penso que a mulher chamada Saori Kido seja uma princesinha mimada. Talvez só tenha acontecido que ela tivesse o poder de Atena… Extremamente arrogante no início, ela parecia mesmo uma rainha, mas eu adorei o instante no qual, de uma hora para outra, ela toma ciência de que é Atena. Também considero as epifanias, o momento em que uma pessoa tem uma revelação sobre algo, uma coisa sublime.

   Ultimamente, tenho até ouvido de algumas pessoas: “Virou Atena mesmo, hein”. Como todos os dubladores trabalham tão duro, por causa dessa tensão, talvez Atena esteja escondida em meu interior sem que eu mesma saiba. Os desenhos de Seiya são soberbos, e precisamos nos esforçar para não ficar atrás. A amizade entre garotos está retratada e, ainda por cima, todos são lindos… (Risos.) É natural a série ser amada por todo mundo, não é mesmo?

   Tirando a Saori, gosto de personagens do tipo lobo solitário, como o Ikki. É que eles aparecem quando os outros contam com o seu apoio, e também gosto do jeito totalmente descolado que eles têm de levar a vida.

   Como o presente é um momento crítico, se pensarmos no futuro do planeta Terra, seria bom se pessoas como a Saori realmente aparecessem.

 

Kōji Yata — Dublador do Mestre-Ancião

 

“Fazia tempo que eu não era tomado por este misto de nervosismo e empolgação na hora de fazer um papel.”

 

    Para falar a verdade, tenho um cachorro em casa e, bem, a cara dele é idêntica à do Mestre-Ancião. (Risos.) É por isso que, antes de vir ao estúdio, digo a ele coisas como: “Vou interpretar seu papel e já volto”. (Risos.) Mas, na hora de representar o velho mestre, tento fazer bom uso das partes em que explico a moral da história e das partes em que dou um sermão ao Shiryu e à Shunrei.

   É um papel fácil de fazer e, além disso, tenho percebido o peso de fazer o Mestre-Ancião nos últimos tempos. Ao mesmo tempo em que fico extremamente nervoso, talvez deva chamar de empolgação… sinto aquele espírito de luta que clama pela realização de um trabalho bem-feito… Fazia tempo que não me sentia assim ao dublar.

   Mesmo pensando que a dublagem da animação é soprar vida nos desenhos, ela é mais do que construir o papel; é naturalmente se tornar um com o desenho, um processo inconsciente. Penso que Seiya é uma produção que nunca trai os espectadores e tenho a expectativa de que pode vir a se tornar uma obra-prima que ficará na história da animação muitos anos após a sua exibição.

   Sendo assim, também uma atuação profunda, e não apenas uma encenação superficial, deve ser demandada. E, como intérprete, creio que preciso corresponder a essa necessidade. Daqui para frente, minha vontade é fazer do seriado uma produção ainda melhor por intermédio do estudo diligente na composição do personagem. Quero que vocês tenham grandes expectativas.

 

Hideyuki Tanaka — Narrador e Dublador do Aiolia

 

“Seria bom se pudesse mostrar mais a doçura do Aiolia, e não apenas a força.”

 

    Considerando que estou a cargo da narração preambular de cada episódio, se pensarmos que também há vezes que nem o Seiya aparece, talvez eu apareça mais que o protagonista. (Risos.)

   Entre os personagens, fiz alguns convidados e o papel do cavaleiro de ouro Aiolia. Como era um personagem com um claro propósito para lutar, limpar o estigma do irmão mais velho, foi fácil simpatizar com ele. Ainda que tenha conseguido expressá-la diretamente, também houve partes em que pensei que seria bom se mostrasse mais a doçura escondida no interior da sua força.

   Penso que um programa de sucesso possui bastantes motivos para tal e, no caso de Seiya, em adição à qualidade da obra original, o anime tem uma história sólida toda semana. É que ele não sofre aquela perda de viço típica das séries de longa duração; é sempre visto como novidade. Até mesmo as cenas de luta… Considerando que estão fazendo lutas bem extremas, se apenas essa parte sobressaísse, acabaria se tornando algo diferente, mas o motivo de isso não acontecer provavelmente é o fato de o equilíbrio entre os cinco protagonistas ser muito bom.

   Inimigos ou aliados, todos os personagens são lindos, mas, por causa disso, especialmente quando eles se cobrem com armaduras e coisas do tipo, a gente acaba sem saber quem é quem. (Risos.)

   Além disso, como uma história de cerca de 12 horas continua por uma eternidade, a passagem do tempo acaba ficando ininteligível. (Risos.)

 

Ardor! História Extrínseca
Corrente Nebulosa: Laços entre Irmãos

 

Elucubrava-se se Ikki havia morrido na luta com Docrates, mas, no final das contas, ele era a Fênix. Em segredo, ele foi ao encontro de Shun e o convidou para uma visita ao túmulo de sua finada mãe. Mas uma sinistra sombra se aproximava de Shun, que voltara à mansão dos Kido! Retratado pelo senhor Takao Koyama, o escritor-chefe da série, é o desconhecido “laço” entre os irmãos do destino, Ikki e Shun!

 

“Ikki, são peixes-arroz!”

“Shun, não gosto de andar em grupo!”

 

    O sino da capela do orfanato Filhos das Estrelas reverberava taciturno. Seiya e os demais chamavam esse sino, que ressoava sem falta às seis da manhã, seis da tarde e ao meio-dia, de “Sino da Esperança”. As badaladas, que pareciam curar os corações feridos das crianças despojadas de laços estreitos com os pais, eram apreciadas por Seiya.

  Até a véspera de seu aniversário de 6 anos de idade, o dia em que foi separado à força da irmã mais velha por causa do grande poder e influência de Mitsumasa Kido, presidente da Fundação Graude, não se sabe quantas vezes Seiya ouviu essas badaladas.

— Mana, sinto como se escutasse o som desse sino mesmo antes de virmos para cá…

Certo dia, quando Seiya murmurou essas palavras no encalço de suas memórias de infância, Seika respondeu como se recordasse:

— Seiya, é que também havia uma igreja perto da casa em que a gente vivia com o papai e a mamãe antes de mudar para cá. Quando escutava as batidas do sino, você ia à loucura e ficava gritando “dingue-dongue” sem parar.

— Hum…

Estranhamente, Seiya já havia se esquecido há muito tempo do rosto dos finados pais, mas lembrava-se até hoje dessas palavras de Seika.

— Mana, onde você foi parar? — pensava.

— Seiya! Seiya!!

Seiya voltou a si com a voz de Makoto.

   Seiya, que visitava o orfanato tencionando aproveitar a folguinha que surgiu depois de um longo tempo derrotando os assassinos enviados por Arles, o Grande Mestre do Santuário, foi atraído pelo sino da capela, que ficava em frente ao pórtico.

   Ao que parece, enquanto olhava instintivamente para o campanário, ele se lembrou da conversa com irmã.

— Ah, é você, Makoto?

Trazendo Akira e Tatsuya a tiracolo, Makoto, o moleque mais levado da escola, estampava um sorrisinho no rosto.

— Como você não respondia nem por decreto, devia estar pensando na Miho de novo…

— Isso mesmo.

— São mesmo feitos um para o outro. — Akira e Tatsuya continuaram dando uma de espertinhos apenas para fazer média com Makoto.

— Chega de falar bobagem! Aqui ó! — diz Miho, entregando um pacote com donativos a Makoto.

— Ahh, é mesmo! Miho, o Seiya chegou!

Lutando para ver quem seria o primeiro e sem conseguir esconder a felicidade, a turma de Makoto, carregando a alegria nas costas, foi correndo em direção ao parque.

   Com um sorriso no rosto enquanto via a turminha de Makoto ir, Seiya havia esquecido completamente de que era o Cavaleiro de Pégaso Ali, ele se sentia unicamente o “mano Seiya”, nada mais.

   No topo de um cômoro ligeiramente elevado, um outeiro de onde se podia ver o mar, Shun estava com o irmão mais velho. Era um solo sagrado, o local onde os mortos dormiam em companhia de incontáveis sentimentos.

   O cândido coração de Shun palpitava mais que o normal. É que, de alguma forma, Ikki, o irmão com quem trocara golpes uma vez, a exemplo de suas estrelas protetoras, havia renascido como a Fênix. E agora, colocando-se ombro a ombro com o irmão mais novo, como um confiável aliado, esse irmão se encontrava diante do túmulo de sua falecida mãe por ele. Para Shun, isso era um sonho.
    Enquanto pensava que, nem mesmo antes de o irmão ser enviado à ilha Rainha da Morte em seu lugar e de ele mesmo ter sido mandado à ilha de Andrômeda, deve ter havido uma coisa assim, um sentimento ardente foi preenchendo o coração do Cavaleiro de Andrômeda. Abruptamente, as lágrimas vão descendo pelas bochechas de Shun, e Ikki não deixa de notá-las.

— Shun, não chore. Se você chorar por nossa mãe, ela não poderá descansar em paz…

Shun balançou fortemente a cabeça em negativa.

— Não é isso, Ikki. Para mim, poder estar com você desta forma é maravilhoso… A partir de agora, ficaremos sempre juntos, certo?

— Shun, sou um homem que já ergueu os punhos contra vocês.

— Irmão…

Impassível, Ikki mudou o assunto da conversa.

— Shun, você não lembra do rosto da nossa mãe, não é?

— Não.

— É natural. A mamãe morreu quando você ainda era um bebê.

— Você se lembra, não é verdade?

— Sim.

— Que tipo de rosto ela tinha?

— Ela se parecia bastante com você.

— Comigo… Ela não se parecia comigo; eu que devo me parecer com ela…

— Hum, algo do tipo.

Raramente, um sorriso se alocava nos lábios de Ikki.

— Irmão, eu acabei fazendo você ir para a ilha Rainha da Morte no meu lugar. Perdão.

— O que está feito está feito.

— Mas, por minha causa…

— Shun, de fato, não há como negar que a ilha era um inferno. Se alguém encarasse aquele lugar com uma mentalidade normal, logo acabaria reduzido a um punhado de ossos… Mas, até nos tornar cavaleiros, todos nós, em maior ou menor escala, comemos o pão que o Diabo amassou por 6 anos, suportando um dia a dia infernal que não queremos recordar, horrível como mastigar areia… Todos carregam um destino manchado de sangue nas costas.

— …

Com um olhar que parecia fitar um lugar longínquo, Ikki começou a falar como se seguisse lentamente as lembranças:

— Se Esmeralda não estivesse lá comigo, eu provavelmente não voltaria a pisar no Japão desta forma.

— Esmeralda?…

— Sim, a filha do meu mestre.

— …

— Suponho que tenha sido o único anjo de cavaleiro que Deus pôde enviar àquela ilha estéril em meu auxílio, um inferno árido tanto de corações humanos quanto de clima e solo.

— Anjo de cavaleiro?

— A garota que carregava o mesmo sangue do homem que me transformou por completo numa massa de ódio era uma criança inacreditavelmente meiga. Se não tivesse o sorriso de conforto da Esmeralda, sem dúvida alguma, eu jamais me reencontraria com você desta forma.

O rosto sorridente de Esmeralda emergiu nos pensamentos de Ikki.

— Além disso, talvez por algum desígnio celeste, Shun, Esmeralda era idêntica a você.

— Idêntica a mim?

— Se desprezarmos a cor do cabelo e o fato de ser uma mulher, ela era a sua cara.

— Isso… Isso é…

— O alojamento que recebi na ilha Rainha da Morte era um úmido e embolorado porão de pedra. Havia esqueletos espalhados por todo o chão… Naquele covil imundo, eu dormia todas as noites como se estivesse morto… mas era encorajado por Esmeralda e, a cada vez que via o rosto dela, eu me lembrava de você e conseguia continuar lutando para voltar ao Japão com a armadura de Fênix.

Sem conseguir resistir, Shun, que ouvia enquanto arfava oxigênio, perguntou:

— Irmão, essa pessoa chamada Esmeralda…

A expressão de Ikki se fechou.

— Ela morreu. É como se eu a tivesse matado.

O rosto de Ikki estava repleto de desaprovação, como se dissesse: “Não pergunte mais”, e Shun, servilmente, assim o fez. Nessa hora, um relâmpago correu no céu oeste, e um trovão distante trovejou baixo.

— Irmão…

— Sim, parece que vai chover. Mãe, para proteger Atena, nós cavaleiros estamos sempre prontos para sacrificar as nossas vidas. Por isso, pode ser que não possamos vir a este lugar novamente.

— Mas, Ikki… nesta hora, poderemos ficar todos juntos no mundo em que a mamãe está…

— Hum, ainda assim, não desperdice a sua vida, Shun.

— Eu sei, já não sou mais um bebê chorão. Sou Shun, o Cavaleiro de Andrômeda.

— É para lutar até o fim, como homem.

— Irmão, eu lhe prometo diante da mamãe.

— Isso — aquiesceu Ikki com a cabeça.

Nesse instante, um trovão distante ressoou novamente. Os irmãos do destino, que haviam virado suas costas à lápide da mãe, não tinham como saber que esses trovões distantes eram o aparecimento do cosmo dos sicários que os espreitavam.

   Quando os irmãos desceram o morro e estavam para cruzar a ponte que atravessava o riacho, Shun percebeu algo na superfície da água.

— Mano, são peixes-arroz!

De fato, na margem que Shun apontava enquanto espiava, um cardume de peixes-arroz nadava à vontade.

   Como se fosse cuspir, Ikki balbuciou:

— Shun, não gosto de andar em grupo.

— Huh…

Quando Shun se virou, de uma hora para outra, Ikki já não estava mais lá.

— Mano, mano!

Como se suprimisse a voz de Shun à procura de Ikki, um trovão ecoou, e uma chuva grossa, que parecia fuzilar o inimigo sob a sua mira, caiu fazendo barulho. O temporal perfurava a superfície da água como uma metralhadora, e o cardume de peixes-arroz, sem perder para Ikki, desapareceu num átimo.

   Deixado para trás sozinho, Shun teve o corpo alvejado sem clemência pela tempestade relampejante, e sua camiseta, como se congelasse num só instante seu coração alegre, logo se transformou num andrajo ensopado.

 

“Ikki, os gansos selvagens estão voando em direção ao céu austral!”

“Shun, não gosto de andar em grupo!”

 

    Quando Shun retornou, completamente encharcado, à fachada da mansão Kido, infelizmente, Tatsumi, que ciceroneava visitantes em companhia de Saori, estava para vir em sua direção. E o mordomo, com a sua habitual voz estridente, que parecia aglutinar a sua postura totalmente desagradável, a sua falta de modos e a sua sordidez, bradou:

— Shun, mas o que é isso!? Essa aparência… é um desrespeito diante dos convidados. — Vá para a entrada de serviço! para a entrada de serviço!

Apressando-se, Shun fez um sinal de reverência aos convidados e estava prestes a rumar para a entrada destinada aos serviçais quando Saori o chamou calidamente.

— Eu não me importo, Shun. Passe por aqui e vá imediatamente para o banho.

— Senhorita Saori… Senhorita… Não pode fazer isso! Se… se demonstrar doçura a esses sujeitos, eles se aproveitarão, e isso vai virar um hábito — protestou o capacho, fazendo jus à reputação de cão fiel.

   Saori prosseguiu, ignorando-o completamente.

— Um cavaleiro provavelmente não pegaria um resfriado nem ficaria acamado só com isso, mas se cuidar é sempre a melhor medida.

— Obrigado, senhorita Saori.

— Tatsumi, eu me despedirei dos visitantes. Quanto a você, leve o Shun até o banheiro.

—Eu!?

— Isso mesmo. Ou será que não pode ouvir a minha ordem?

— Não, claro que não. Venha, Shun.

— Tatsumi, Shun está molhado da cabeça aos pés. Deve ser difícil entrar nesse estado. Carregue-o nas costas.

— Hein, de cavalinho?!

— Exatamente.

De todo o seu corpo, Tatsumi fez queimar um arremedo de cosmo de repúdio. Ardendo em chamas, parecia que a qualquer momento sairia vapor da sua careca.

— Tatsumi!…

Já que Saori o instou como se o admoestasse, ele não pode fazer nada além de obedecer. Assentindo relutantemente, ele se curva.

— Shun, suba logo nas minhas costas.

— Desculpe.

Sem qualquer sentimento de gratidão durante essas palavras e sem reservas, Shun subiu nas costas largas de Tatsumi, deixando cair o seu corpo.

   Mas Tatsumi não sossega se não pregar a sua lengalenga:

— Shun, quando as pessoas esquecem uma coisa chamada cerimônia, o bom senso, é o fim. Em sua infinita sabedoria, Deus nos concedeu até as palavras “não, obrigado”. Lembre-se muito bem disso.

Enquanto reclamava, seguiu por um longo corredor com Shun nas costas.

   Ao se despedir, Saori percebeu que a figura de Ikki não estava presente, e a insegurança perpassou seu coração:

— Eu me pergunto o que há com o Ikki… Se… será?…

   Enquanto tomava banho, Shun também voltara a pensar em Ikki.

— Mano, mesmo que estejamos para ser separados por um destino similar a uma tormenta… nós temos o mesmo pulsar da vida… Quanto mais formos afligidos por sofrimentos, mais o nosso elo se fortalecerá, como uma corrente nebulosa. Não é, mano? — pensou Shun.

   Se tivéssemos de apontar o rapaz mais afeminado da turma de Seiya, a escolha recairia sobre Shun, mas o corpo musculoso desse homem é como uma escultura grega, e sua pele formosa, herança de uma mãe cujo rosto desconhece, continua a repelir esplendidamente a água quente do chuveiro.

— Não importa o que aconteça, eu acredito em você, irmão…

 

“Irmão, vamos pegar uma sauna?”
“Shun, não gosto de lugares abafados!”

 

    Parecendo responder à súplica de Shun, um flash de relâmpago corta o céu, e como se o corpo escultural tivesse se deparado com os raios de um refletor, a bela silhueta vai emergindo na meia-luz crepuscular do banheiro.

   Recebendo a água quente que jorrava do chuveiro, no coração de Shun, que havia esfriado gradualmente, o calor humano recrudesceu, exortando o belo garoto a ponderar:

— Irmão, divida seu sofrimento comigo também… Para apagar as memórias ruins, deve haver coisas que até eu sou capaz de fazer…

   Aparentando esperar impacientemente que Shun — já envolvido num roupão de banho — saísse do lavabo, Saori se dirigiu a ele:

— Shun, você estava com o Ikki, não é?

Num instante, a cor da desilusão passou nos olhos de Shun, que começou a explicar calmamente:

— Ao que parece, para o meu irmão, o fato de ter sido nosso inimigo virou um problema. É por isso que ele está refratário à ideia de ficarmos sempre juntos, lutando enquanto ajudamos uns aos outros…

— Aquele sujeito era do contra desde os tempos de moleque. Realmente, um tipo intratável! — disparou Tatsumi, parecendo aborrecido.

—Tatsumi! — Saori repreendeu.

— Sim, mas… mas, senhorita…

— Ikki também se tornou nosso confiável aliado. Ele é o Cavaleiro de Fênix, imprescindível para cortarmos pela raiz o mal que corrompe o Santuário.

Ao decretar isso, os olhos de Saori estavam inundados pelo fulgor da confiança.

   O sorriso retornou à face de Shun.

— Senhorita Saori, Shiryu e Hyoga saíram?

— Sim, Shiryu voltou aos Cinco Picos Antigos, e Hyoga, à Sibéria.

— Entendo. Seiya também foi ao orfanato, não é?

— Sim, parece que recebemos um aviso de que ficará lá esta noite.

A fisionomia de Shun se fechou.

— Todo mundo tem um lugar para o qual retornar. Estou com inveja…

— Shun, mas você também tem um lugar para voltar.

— Heh?

— O lugar ao qual você retorna é esta casa. Não há por que ficar constrangido ou se comedir. Considere esta casa o lar em que você nasceu e não hesite em se portar como quiser.

— Senho… Senhorita Saori…

O brilho voltou às pupilas de Shun. Nelas, a imagem de Saori era fixamente refletida. — Tsc, sujeitos de sorte! — murmurou um Tatsumi totalmente enraivecido.

   Nessa noite, mesmo na cama, Shun não caia no sono de jeito algum.

— Eu me pergunto onde estará meu irmão agora… Será que ele está dormindo numa cama quentinha? Se não tivesse ido para a ilha Rainha da Morte no meu lugar, o destino do meu irmão também seria completamente diferente… É tudo culpa minha… Perdão, Ikki…

   Sempre que o rosto de Ikki aparecia na mente de Shun, ele sumia. Sem resistir, Shun pula da cama e abre a janela, deparando-se com um céu totalmente estrelado. — Oh! Mesmo em Tóquio… pode-se ver as estrelas assim? Onde quer que esteja, meu irmão certamente deve estar contemplando esse espetáculo… Ó estrelas de Andrômeda, aproximem os nossos corações para que algum dia possamos vê-las juntos.

   Nesse momento, a sua compleição mudou.

— Esse cosmo lancinante…

À luz das estrelas, inclinou seu corpo para fora da janela e observou rapidamente a área da residência. Ele concentrou todos os seus nervos.

— Agora que Seiya e os outros não estão aqui, não há ninguém além de mim para proteger a senhorita Saori. Estão apostando no nome do Cavaleiro de Andrômeda…

   Seus olhos pousaram sobre o telhado do planetário que o finado Mitsumasa amava. No instante seguinte, o corpo de Shun passou pela janela, e ele correu de olho na estrutura. Então, respirando profundamente, duvidou dos próprios olhos, pois reconheceu a sombra no alto do planetário. Gotículas de suor brotaram da testa de Shun.

— A… aquela é a armadura de Fênix. Não pode ser…

Abandonado à própria sorte, o coração de Shun estava como uma folha atirada para lá e para cá pelo mar revolto.

— Mas o que é esse cosmo repleto de maldade? Não, parece até uma massa de ódio! Por… Por que o meu irmão?…

Shun não podia acreditar. O mesmo Ikki que poucas horas antes havia dito que, se fosse para proteger Atena, sempre daria a própria vida, agora estava queimando um cosmo tão maléfico…

— Irmão, por favor, pare com essa piada!

Mas a sombra em cima do telhado nada diz.

— Que diabos aconteceu?!

— …

Um cosmo semelhante a uma punhalada desafiava ainda mais todo o seu corpo. Gradualmente, a respiração de Shun entrara em colapso, mas ele ainda não havia se dado conta disso.

   O Fênix em cima do telhado levantou a mão direita. Imediatamente, 4 sombras, vindas de um lugar desconhecido, se reuniram e, como pivôs, se postaram em forma de leque diante do combatente protegido pela ave imortal.

— Im… Impossível! Aquela é a armadura de Andrômeda! Até as armaduras de Pégaso, Dragão e Cisne… É isso! esses sujeitos são os cavaleiros negros!

   O Fênix Negro finalmente quebrou o silêncio:

— Hahahaha! Shun, parece que finalmente percebeu. Sou o Fênix negro, o homem que reuniu novamente as armaduras negras em nome do seu irmão!

— Fênix Negro…

   A transpiração foi umidificando as mãos de Shun.

— Isso mesmo. Viemos de muito longe para mandar o Ikki, que fracassou em morrer na ilha Rainha da Morte, para o outro mundo. Onde está o Ikki?!

— Lamento, mas, se vieram atrás do meu irmão, perderam seu tempo. Ele não está aqui.

— O quê!?

— Nós nos separamos de dia, durante a trovoada.

— Hum, se é este o caso, melhor ainda. Sendo você, nós lhe daremos um banho de sangue. Vamos chaciná-lo!

Fênix Negro faz outro sinal levantando o braço direito e, numa fração de segundo, as quatro sombras cortam o espaço para encurralar o compassivo irmão de Ikki.

— …

Shun não estava usando a armadura de Andrômeda. Se pelo menos estivesse com a armadura, a corrente, a rede defensiva da parede de ferro, o orgulho de Andrômeda, reagiria rapidamente e montaria uma formação de batalha que nem mesmo uma formiga pode transpassar, mas o perigo se aproximava a cada segundo. De repente, as correntes do Andrômeda Negro vieram zunindo pelo ar.

   Num salto desesperado, Shun conseguiu evitá-las por muito pouco.

   Com um sorriso jocoso, o Andrômeda Negro declara:

— Dragão Negro, Cisne Negro, Pégaso Negro, permitam que eu me encarregue do Shun.

Dragão Negro e os demais aquiescem com um movimento de cabeça e se afastam.

   Depois de encurralar Shun em seu raio de ação, o cavaleiro negro bradou com arrogância:

— Shun, vista a sua armadura e venha! É um duelo para determinar quem triunfará, essa sua corrente de bronze ou a minha corrente negra.

— É isso mesmo que eu queria.

Resoluto, Shun não perde tempo para envergar a armadura. Por sua vez, a corrente de Andrômeda reage tinindo e logo começa a armar sua intransponível formação defensiva.

   Queimando seus cosmos, Shun de Andrômeda e Andrômeda Negro se confrontam. Impelidas por um vendaval, nuvens negras escondem a lua crescente e vão passando novamente. Banhando-se na luz que escapava das fendas entre as nuvens, as correntes dos dois deflagraram seu esplendor faiscante. Subitamente, a corrente de Shun passou a mimetizar a forma da nebulosa de Andrômeda.

— Tome isto!

Sibilando, a corrente negra avançou sobre o cavaleiro de Atena. Reagindo instantaneamente, a corrente de Shun também alçou voo. Como duas najas com pescoços arqueados, as correntes do bem e do mal colidem no espaço entre os rivais e, soltando faíscas, são arremessadas de volta. Um equilíbrio perfeito.

— Só podia ser a grande corrente de Shun de Andrômeda. Mas o que fará contra isto?!

Andrômeda Negro se põe em guarda numa distância satisfatória e, no instante seguinte…

— Corrente Nebulosa Negra!!

Cortando o ar, as malignas correntes transformaram-se, uma a uma, em serpentes e foram investindo contra Shun.

— Uwaaaaa…

Até mesmo a nebulosa de Andrômeda foi pega desprevenida. Embora tenha destruído sem misericórdia um grande número de víboras, as serpentes que deslizaram pela defesa pregaram suas presas no corpo de Shun e foram se enroscando no Cavaleiro de Andrômeda.

— Ughh…

Deve-se dizer que, em desvantagem na batalha, o formoso rosto de Shun se deformou em agonia.

— Uhhhhh!

Braços, pernas… As cobras se enroscam em todo o corpo e vão constringindo-o.

— Uhhh!!

— Tsc, brincadeira de criança. Mas não se pode esperar outra coisa do irmão mais novo de Ikki, que traiu o Mestre Arles.

— Como é?!

— Bem que falam que irmão de covarde, covarde é.

— Não… não ligo que fale de mim, mas falar mal do meu irmão é imperdoável!

A fúria incendiou o cosmo interior de Shun.

— Ugh… Meu irmão é meu orgulho!

A cosmoenergia foi se elevando mais e mais.

— O quê?!

   Ignorando o ataque do Andrômeda Negro, o cosmo emanado de todo o corpo de Shun mandou todas as víboras pelos ares de uma só vez.

   As cobras, que caíram em pedaços, voltaram à forma original.

— Maldito!

A soberba do Andrômeda Negro se tornou rancor, e não passou despercebido a Shun que, da sua fronte, vertia o segundo filete de suor.

— Andrômeda Negro, vou lhe mostrar o verdadeiro poder da minha corrente e a sua derrota. É o seu castigo por me deixar realmente irritado.

— O que está dizendo?! Ainda não compreendeu o terror da corrente negra?! — a corrente negra foi desfechada.

Shun reagiu sem perder tempo.

— Corrente Nebulosa! — a corrente, o orgulho de Andrômeda, foi lançada.

   Como se cada elo criasse vida, a retumbante cadeia da nebulosa foi atacando o Andrômeda Negro.

— Ugh!!

   Tendo cada centímetro do corpo fortemente alvejado pela corrente nebulosa, o perverso Andrômeda Negro desapareceu, deixando para trás um grito de pavor. 

   Embora tivesse derrotado o primeiro, não havia tempo de descanso para Shun, que foi imediatamente cercado por Pégaso Negro, Dragão Negro e Cisne Negro.

— Irmão, lutarei como homem até o fim.

Mas ele estava em menor número. Ainda que a corrente nebulosa voasse por todas as direções, com o Pégaso Negro disparando o seu Meteoro Negro, o Cisne Negro desferindo a sua Nevasca Negra e com o Dragão Negro desfechando o Dragão Ascendente Negro seguidamente, Shun foi vítima de um linchamento. O tétrico grupo deu prosseguimento à tortura, reduzido o Cavaleiro de Andrômeda a uma situação desesperadora, de vida ou morte.

   Contando vantagem, o odioso Fênix Negro proclama:

— Shun, você perdeu! É melhor cair no inferno obedientemente.

— Não, não vou perder. Sou o único irmão de Ikki de Fênix.

Instigando o corpo ferido, Shun levantou a guarda, reassumindo a postura de luta, mas já não era inimigo para eles.

— Ugh… ugah…huh…

   Como um saco de pancadas, acabou recebendo os ataques inclementes do Pégaso Negro e do resto da choldra. Os olhos de Shun estavam vazios. Agarrando o ar com as mãos, ele tombou de cara no chão.

— Pégaso Negro, aplique o golpe de misericórdia!

Anuindo à ordem do Fênix Negro, a maldosa contraparte de Seiya se preparou para atirar o Meteoro Negro; contudo, nessa hora, da mesma forma que uma shuriken, uma pluma cortou o ar e tocou tenuemente o seu rosto.

— Quem… quem é?! — vociferou o Pégaso Negro.

   A Lua foi coberta por nuvens negras, e as trevas tornaram-se ainda mais densas. Em meio à escuridão, a voz de Ikki de Fênix ecoou:

— Armaduras negras são patéticas. Como se atrevem a incomodar o meu irmão?! Vou lhes devolver em dobro tudo que fizeram! — trajando a armadura de Fênix, Ikki apareceu galantemente, dissipando a escuridão.

— Ir… Irmão… eu sabia que você voltaria para mim.

— Shun, já está tudo bem.

Do topo do telhado, o Fênix Negro esbravejou:

— Ikki, seu traidor! Estávamos esperando você dar as caras. Seguindo a ordem do Mestre Arles, purgaremos você. Entregue-se servilmente e embarque para o outro mundo!

Ikki olha para cima, fitando o Fênix Negro.

— Ora, mas não é o Ritahoa?

O semblante do Fênix Negro mudou subitamente.

   Enquanto conferia também os rostos do Pégaso Negro e dos demais, como se estivesse surpreso, Ikki foi chamando-os pelos nomes, um a um.

— Você é o Kenuma; você é o Jido, e você é o Shinadekuro, não?

Tendo seus nomes chamados, Pégaso Negro e os demais olharam para o chão, parecendo envergonhados.

— Hum, na época em que reuni as armaduras negras, vocês eram a escumalha da ilha Rainha da Morte, uns pobres-diabos, Ritahoa. Ah, é! agora é Fênix Negro, não? Mas que piada! Se têm amor à vida, sumam da minha frente de imediato!

Mas o altivo Fênix Negro também não perde a oportunidade de contar vantagem:

— Ikki, se pensa que somos os mesmos de antigamente, está muito enganado. Para acabar com os cavaleiros de bronze, nós recebemos um treinamento especial no Santuário. Além disso, o próprio Mestre Arles nos incumbiu a missão de eliminar você, seu traidor.

— E daí?!

— Se derrotarmos vocês, receberemos permissão para realizar formalmente o treinamento de cavaleiro na ilha Rainha da Morte. É a nossa primeira e última chance, e vamos agarrá-la com unhas e dentes! Peguem-no! — ordenou a Pégaso Negro e aos demais.

Mas o mundo dos cavaleiros não é um lugar em que homens que demonstraram fraqueza uma vez são aceitos. Tanto o Pégaso Negro, chamado de Kenuma, quanto o Cisne Negro, chamado de Jido, e o Dragão Negro, chamado de Shinadekuro, eram impotentes contra Ikki.

— Ave Fênix!!

Com um dos golpes selvagens de Ikki, o trio é pateticamente mandado pelos ares. O único que restava era o Fênix Negro, Ritahoa. Agora, as duas fênices se confrontariam.

— Ritahoa, as armaduras negras sempre serão existências das sombras. Yin-yang. Em outras palavras, se você é yin, eu sou yang. Lamento, mas, mesmo que o céu e a terra troquem de lugar, algo como o yin suplantar o yang é bastante improvável.

— Ikki, ao que parece, a única coisa que se fortaleceu no período em que ficamos afastados foi a sua boca grande. Logo saberemos quem é yin e quem é yang. Kiehhhhhhhhh!! — com um agudo grito de guerra, o Fênix Negro foi desferindo golpes contra Ikki. Ataques à velocidade da luz, que rivalizavam com o Meteoro de Pégaso.

Ikki desviou-se por um triz.

— Esse sujeito… Sem que eu soubesse, ele aprimorou sua técnica dessa forma?! Se subestimá-lo, serei morto.

— Morra, Ikki!

Ikki é atingido por um golpe do Fênix Negro.

— Uooh!

Lançado a distância, Ikki colide com o chamado “freixo centenário”, acabando por derrubar a frondosa árvore com o choque. Algo caiu do pescoço de Ikki e cintilava no chão, mas ninguém percebeu.

   Recebendo danos severos, Ikki se levantou. Completamente extasiado com o golpe inicial, o Fênix Negro sentia-se como se tivesse vencido só com isso.

— E então, Ikki?! Eu não sou o Ritahoa de antigamente. Sou o Fênix Negro, o combatente que foi reconhecido por Sua Santidade, o Mestre Arles!
— De fato, vou admitir que você ficou mais forte. Mas ainda faltam uns 100 anos para se tornar meu rival.

— Como é?! São suas últimas palavras. Tome isto! — Ritahoa foi desfechando reiterados golpes à velocidade da luz.

— A mesma técnica funcionará duas vezes?…

Vendo através dos golpes do Fênix Negro, Ikki se esquiva habilmente e dispara o contra-ataque.

— Uwahhh!

   Ritahoa foi varrido de forma desajeitada para as raízes da árvore na qual Ikki havia sido atirado pouco tempo antes. Entretanto, levantou-se imediatamente e se colocou em guarda. Nessa hora, Ikki percebeu uma coisa brilhando aos pés do oponente.

— Ah!

   Ao ver Ritahoa se levantar e espezinhar o objeto brilhante, a fisionomia de Ikki se alterou.

— Mise… com esses pés imundos… É melhor contemplar uma ilusão. Golpe-fantasma de Fênix!!

   O golpe da ilusão foi deflagrado como se rosqueasse o espaço entre as sobrancelhas do Fênix Negro até a sua mente.

— Uwahhh!

   Ritahoa afogava-se no mar da ilusão. Tendo magnificada a sua imagem sendo massacrado quase até a morte pelos sequazes de Ikki, o governante da ilha Rainha da Morte, contra quem se rebelara, ele acabou dilacerando seus próprios nervos. A luta acabou num piscar de olhos.

   Ikki estendeu a mão ao objeto cintilante.

— Irmão!

   Ikki ofereceu o objeto que havia apanhado a Shun, que correra em sua direção. Era uma pequena cruz.

— Eu queria lhe entregar isto, mas acabei me esquecendo.

— Isso é…

— É a única lembrança da nossa mãe.

— Hã, da mamãe…

— É algo que a nossa mãe usou até falecer. Entregando-me isto pouco antes de dar seu último suspiro, a nossa mãe me disse para cooperar com você e continuar sempre ao seu lado.

   Com a palma da mão, Shun sentiu a mãe, cujo rosto sequer conhecia, e, parecendo encantado de corpo e alma, a acariciou. As lágrimas de Shun derramaram e caíram sobre a cruz.

— Irmão, a partir de agora, vamos ficar juntos, não é?

— Shun, essa cruz é a nossa mãe e também sou eu. Sempre estaremos com você. Eu sempre estou lutando junto com você.

— Mas…

— Eu sempre virei socorrê-lo.

— Mas, Ikki…

— Shun, você quer me fazer falar novamente?

— Hã…

— Não gosto de andar em grupo.

Virando as costas ao proferir essas parcas palavras, Ikki foi se dissolvendo no breu da noite.

 

10 Responses to “Jump Gold Selection 1: Saint Seiya Anime Special”

  1. Alex disse:

    Muito obrigado por vocês compartilharem este material, através da tradução, com os fãs brasileiros.
    Poxa pessoal, mais de 3.500 views e nenhum agradecimento até agora, não custa nada.

  2. Honório Homem de Melo disse:

    Maravilhoso, o maior lançamento dos últimos anos. Aguardo ansiosamente pelos proximos . Muito obrigado pelo trabalho fantástico .

  3. Robério Queiroz disse:

    Boa noite, Gosto muito do seu site vejo quase que diariamente, gostaria de saber se você pretende colocar o Jump Gold Selection 2 e Jump Gold Selection 3

    • admin disse:

      Boa noite, amigo. Alegra-me saber que você gosta do site. Muito obrigado. Tenho, sim. Já traduzi o segundo livro e vou começar a edição em janeiro. Devo disponibilizar os dois volumes no próximo ano. Por favor, continue acompanhando. Aguardo suas considerações sobre as publicações.

  4. Luis disse:

    Como um dos sortudos que tem as edições originais em japones sempre foi muito frustrante perceber que estavam lá contidas informações importantes que fui decifrando pelos esquemas, katakanas, e pedaços soltos de tradução que vejo por aí. Muitos parabens pelo extensissimo trabalho.

    Há previsão de tradução dos volumes 2 e 3?

    • admin disse:

      Saber que você apreciou o trabalho me deixa feliz. O 2 já está traduzido. Assim que conseguir tempo para editá-lo, vou fazê-lo. Fique com Deus.

  5. Marisa Werman disse:

    Bom dia. Como fã de Cavaleiros, sempre lia em sites como o Cyna que esse livro era a grande enciclopédia do anime, uma publicação maravilhosa, etc. Mas nesses quase 20 anos de internet, Deus sabe o porquê, ninguém traduziu o livro e ele não foi lançado fora do Japão. Procurando o livro para comprar, caí neste site! Não acreditei no que vi!! Traduziram o livro todo e fizeram uma edição fantstica. Vendo esse site, não tenho dúvidas que é o melhor site que existe, ninguém nunca fez o que vocês fizeram. Meus parabéns!! Conforme as respostas aqui, vou aguardar pelos outros livros, mal posso esperar. Muito, muito obrigada mesmo.

    • admin disse:

      Boa noite, Marisa.
      Embora fique lisonjeado com o seu comentário, este site ainda é muito lacônico. Saber que você gostou tanto do meu trabalho me exorta a continuá-lo. Logo postarei o segundo livro. Muito obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *